A MÁGICA DENTRO DA MÁGICA
Não deu para vê-los na tela grande, arrisquei-me a enfrentá-los na telinha; refiro-me aos filmes concorrentes ao último Oscar, entre os quais os que levaram maior número de prêmios: “O artista” e “A invenção de Hugo Cabret”. Aliás, merecidos prêmios, merecidíssimos. Ambos nos deslumbram como obras-primas da história cinematográfica sendo ao mesmo tempo a própria história do cinema, ao mostrarem-na, cada um a sua maneira que o cinema é um ser alquímico, único e mutável, regenerador, transformador, adaptador, no caldeirão em que ferve, onde aparentes impossíveis fusões podem dar certo, muito certo.
Mas para melhor apreciar ambas, é bom não ser apenas um consumidor de filmes pipoca, mas um espectador que conheça o cinema em sua diversidade, que assiste de tudo, gosta de estilos vários, várias escolas, de seu tempo e de outros tempos. Por exemplo, uma dica para apreciar e valorizar mais “O artista” é conhecer “Cantando na Chuva”, aquele com Gene Kelly e um dos pares de pernas mais famosos do mundo, o de Cyd Charisse. Já ouviu falar em “Cantando na Chuva”, Gene ou Charisse?
Não, então corra atrás antes de ver “O artista” que, em tempos de 3D, ousou ser “mudo” e em preto-e branco - ah, e por isso, e serve também para “A invenção...”, é preciso avançar mais, ir-se às origens mágicas da sétima arte.
Porém, se não gostar de “Cantando na Chuva”, nem passe perto do último oscarizado. Os filmes antigos, mudos, alguns nem com trilha sonora tocada ao vivo, como era de costume, tinham que se impor não só pelas ações do enredo, mas mais ainda pelas feições, gestos, movimentos dos atores-personagens, e por isso, os rostos do cinema antigo surgem extremamente maquiados, ou em esgares exagerados, muitas vezes soando a caricaturas. “O artista” brilha nesse quesito, e não é em 3D, nem precisa, até na telinha é arrebatador. O contrário, porém, devo dizer de “A invenção...”, deslumbrante, mas percebo obrigatório degustá-lo num lugar que exponha em toda completitude as técnicas pelas e para as quais foi desenvolvido.
Após ver “A invenção...”, infelizmente, como disse, na telinha, penso no que o José Wilker, de quem gosto muito de ouvir os comentários sobre o Oscar disse “Já vi várias produções em tal recurso, mas só agora vi um filme realmente em 3D”. Se foi maravilhoso na minha Tv, imagino a sensação provocada no cinema, onde fluindo perfeito em todas as suas dimensões acentuaria ainda mais sobre nós o poder prestidigitador da mágica que nos mantém freqüentes nas salas de projeção a não despregar os olhos da tela. Depois de “Kundun”, Scorsese estava a dever outra obra-prima, que veio agora, impecável, com “A invenção de Hugo Cabret”.





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